“O que tem a ver Políticas Públicas com Diversidade?”

Talvez esta seja a questão que você está se perguntando agora. Ainda mais porque no nosso país há uma percepção generalizada de que a burocracia estatal só engessa as coisas que toca.

Mas, definitivamente, o papel das Políticas Públicas em todas as áreas, incluindo no impulsionamento da Diversidade, não é tão simples ou unidimensional assim.

Primeiro aprendizado: no geral, o Brasil ainda precisa de Políticas Públicas para seu ecossistema de tecnologia e inovação

De acordo com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), o Brasil está na posição 57 do Índice Global de Inovação 2021, o que o posiciona bem dentre 132 economias. Já o Centro de Tecnologia Aplicada da FGV (FGVcia) nos traz outros dados sobre o acesso digital no país: para uma população de cerca de 212 milhões de pessoas, nós temos 447 milhões de dispositivos digitais em uso, o que equivale a 2,1 aparelhos por pessoa.

No entanto, este é o mesmo país:

  • Que consta agora com 10 milhões de pessoas desempregadas (IBGE), 
  • Que tem mais de 33 milhões ainda não possuem acesso à internet (Instituto Locomotiva), 
  • Cujo 1% mais rico ganha 35 vezes mais renda do que os 50% mais pobres (IBGE),
  • E no qual o empreendedorismo ainda é massivamente de sobrevivência: 45% das pessoas empreendedoras ganham até um salário mínimo como renda mensal, e só 27% tiram de um a dois salários mínimos por mês (SEBRAE).

Este empreendedorismo massivamente praticado também passa longe do de base tecnológica.  Tanto o acesso tecnológico quanto o acesso ao letramento tecnológico são extremamente desiguais no vasto território nacional. Isso se ilustra, por exemplo, quando olhamos a concentração de Startups no Sul e Sudeste: mais de 77% delas estão nessas duas regiões (ABSTARTUPS).

Então, é perceptível que o Brasil tem uma base digital relevante, mas ela não está bem distribuída. Tem acesso a recursos relevantes, mas eles não estão bem distribuídos. Tem movimentação inovadora relevante, mas ela não está bem distribuída.

E aí, qual é a ferramenta de impacto que tem potencial de capilaridade, para alcançar todo o cenário brasileiro, e de transformação equitativa, para contrabalançar todas essas estatísticas? As Políticas Públicas.

Então, mesmo antes de fazer recortes populacionais específicos, visando o empreendedorismo inovador e tecnológico liderado por mulheres e por pessoas negras, por exemplo, nós já estamos falando de uma conjuntura social que, fundamentalmente, precisa dos efeitos das Políticas Públicas para avançar alavancando o seu real potencial. 

Qualquer país que não invista em seu ecossistema de inovação e tecnologia está fadado a ser um mero seguidor. Ele não só ficará para trás nas estatísticas socioeconômicas como, sobretudo, ficará, sem qualquer peso nas movimentações econômicas e decisões relevantes no panorama global.

Segundo aprendizado: o potencial do Brasil não é brincadeira

Um dos dados que o Mapeamento trouxe foi o levantamento do Instituto Locomotiva que numerificou o movimento econômico gerado pela população negra no Brasil: a cifra é de R$ 1,7 trilhão anualmente.

E aqui nós estamos falando da população que, embora seja a maioria, ainda está na base da pirâmide nacional: no topo estão os homens brancos, seguidos de mulheres brancas, depois vem os homens negros, e por último as mulheres negras.

Façamos o exercício de imaginar então que este 56% do Brasil, que está hoje na base, tenha acesso equitativo e massivo ao letramento tecnológico, aos recursos e dispositivos tecnológicos, aos diversos potenciais de inovação, a oportunidades efetivas de gerar novos negócios, a investimento e crédito que possibilite o alavancamento e a continuidade dos seus empreendimentos, a renda que garanta segurança financeira para criar e desenvolver novos produtos e serviços, a redes de contatos que possibilitem atalhos e proximidade a novas perspectivas… O que será do Brasil em 10 anos? Em 15 anos? Em 50 anos?

Este é o exercício que precisamos fazer para visualizar do que nós estamos falando. Não é “só” sobre mulheres e sobre pessoas negras: o assunto em pauta é desenvolvimento econômico. É protagonismo global. É cenário de negócios pioneiro, próspero e sustentável.

O potencial do Brasil não é brincadeira. O foco nas Políticas Públicas de desenvolvimento também não pode ser.

Terceiro aprendizado: é na união do poder público com o setor privado que reside muito da nossa força

Ainda falta no Brasil uma exploração mais intensa e criativa de Políticas Públicas que envolvam, simultaneamente, o poder público e o setor privado.

Cada uma dessas duas esferas possui suas particularidades e forças. Para a burocracia e engessamento do setor público, por exemplo, o segmento privado pode responder com adaptabilidade e agilidade – isso só para citar um único ponto de possibilidade. Imagine então a combinação de esforços que unam as qualidades e vantagens complementares, e que equilibre as imperfeições de cada um dos poderes.

Então aí o resultado pode ser a soma de capilaridade com massividade, com agilidade, com adaptabilidade, com criatividade… enfim, o potencial é gigantesco. E mais gigantesco ainda se nessa soma a equidade for a variável de maior peso da equação. Ou seja, se as Políticas Públicas forem criadas para reduzir e tratar as disparidades que existem entre os diversos grupos sociais.

Muitos lugares, como Nova York com o projeto Black Entrepreneurs NYC, de 2020, já possuem boas práticas que nos ensinam sobre o impacto positivo que iniciativas conjuntas podem ter no ecossistema de empreendedorismo. E práticas brasileiras também, como a parceria entre PUC-RS e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, citada no Mapeamento, já traçam este caminho de transformação no cenário nacional. Mas tudo ainda muito tímido e principiante – há muito espaço para exploração.

Para a complexidade e para a multiplicidade de desafios que existem no contexto de Empreendedorismo do Brasil, incluindo o Empreendedorismo de inovação e de base tecnológica, são necessárias iniciativas e Políticas Públicas complexas e múltiplas, que considerem os índices socioeconômicos em suas particularidades, e que envolvam todos os stakeholders do ecossistema. 

Estes são os principais aprendizados que tive com este levantamento, e que deixo aqui como provocação para você e para a sua organização. Qual é o papel que vocês estão desempenhando na transformação deste cenário hoje? E qual é o papel que vocês querem ter nele amanhã?

Você pode conhecer o nosso Mapeamento e pode também se engajar neste diálogo e neste esforço conosco: para começar, acesse https://www.dinamo.org.br/diversidade.