No artigo anterior, iniciamos investigando as origens da falta de talentos em STEM no Brasil e fomos até o Ensino Fundamental. Neste texto, quero explorar algumas ideias que podem inspirar a criação de políticas públicas para que você, leitor, possa debater conosco. Nossa ideia é sempre estabelecer este diálogo e construir junto à sociedade as melhores propostas de políticas públicas que possam ser apresentadas aos governos. 

O que acontece após a entrada nos cursos de STEM?

Segundo estudo realizado em 2021 pelo SEMESP (entidade que representa mantenedoras de ensino superior do Brasil), a evasão é maior nos cursos superiores de STEM do que nas áreas biológicas, saúde e humanas. O curso Sistemas de Informação, por exemplo, encabeça a lista com uma taxa de 37,6% de evasão. E entre os 10 primeiros cursos listados, 4 são Engenharias* Os motivos da desistência dos jovens adultos são diversos, mas entre eles, destacam-se: a estrutura do curso e o alto índice de reprovação.

No quesito estrutura, o estudante percorre uma longa jornada até perceber a aplicação dos conteúdos com o que o mercado demanda. O que gera insegurança e questionamentos sobre se aquele curso é realmente a melhor escolha para a carreira profissional. 

Novamente, fica clara aqui a necessidade de investimento nos professores. De forma geral, eles não estão expostos ao repertório de desenvolvimento tecnológico e às demandas do mundo do trabalho. Portanto, têm mais dificuldade em trazer para o processo de aprendizagem, as experiências práticas e dinâmicas que poderiam motivar e trazer mais sentido ao aprendizado dos conteúdos da grade curricular. 

Também pesa o fato de que muitas vezes, o jovem adulto precisa conciliar estudos e trabalho e a estrutura dos cursos públicos federais muitas vezes não facilita a manutenção das duas atividades com qualidade. O resultado é que em algum momento, este jovem precisa fazer escolhas extremas e é levado a desistir ou adiar a conclusão do curso, em razão de obrigações com o sustento da família.

Algumas ideias de políticas públicas para debate

De forma geral, as diversas iniciativas que podemos apontar neste artigo giram em torno de educação e formação de crianças, jovens e de professores. Mas esta frente educacional também poderia contar com outra frente, com papel de apoio, que traria políticas de incentivo para uma mudança de cultura e a aceleração de resultados. 

Conceito de educação. o ambiente de sala de aula em que os alunos pretendem estudar seriamente. A cena da frente é um estudante, ao fundo um professor está ensinando.

Formação de mais e melhores profissionais

As políticas públicas visando o aumento do número de profissionais formados para as vagas de STEM disponíveis hoje no mercado estão no grupo das iniciativas de cunho essencial e de curto prazo. Mas como faríamos isto?

  • Criar novas vagas no ensino regular de nível técnico e superior.
  • Estimular iniciativas no mundo não-regulado: bootcamps e cursos livres.
  • Cuidar da qualidade destas formações.
  • Cuidar da conexão com o mercado de trabalho – atualmente, após concluir sua formação, o estudante de Ciências da Computação precisa compreender as necessidades e formas de atuação no mercado.
  • Encurtar o tempo – trazer experiências de aprendizado mais ágeis para as formações como forma de acelerar a curva de aprendizado e responder às necessidades do mercado de forma mais assertiva.
  • Desenvolver também as habilidades para o século XXI, as chamadas soft skills como gestão de conflitos, resolução de problemas, comunicação, adaptação…

Afinal, não se trata apenas de saber programar e desenvolver sistemas, mas também de compreender as necessidades das pessoas que o utilizarão, como implementar, aplicar, otimizar a adoção… todos os desafios inerentes a trabalhos em contextos de alta complexidade, que envolvem ser e estar em sociedade.

Como aproximar os cursos superiores e técnicos do mercado?

Nos últimos anos, em busca de ocupar as vagas disponíveis em STEM, grandes empresas têm empreendido diversas iniciativas voltadas à formação e inclusão de profissionais no mercado tec. Algumas destas experiências já começam a trazer resultados e podem inspirar iniciativas de nível nacional.

  • Mentores de mercado – profissionais do mercado podem assumir o papel de mentores de estudantes de escolas técnicas e superiores, compartilhando conhecimento técnico, casos reais e desafios do mercado com os estudantes.
  • Aprendizagem baseada em projetos – esta metodologia (dentre as diversas metodologias ativas) pode ser aplicada para a resolução de problemas, o que permite aos estudantes a imersão em dados e contextos reais de mercado. Com um objetivo em comum, um grupo de estudantes tem a oportunidade de trabalhar de forma colaborativa e desenvolver a capacidade de análise e síntese, além de autonomia e criatividade.
  • Formatos e horários flexíveis de estudos para jovens que trabalham como forma de incentivar que o estudante siga com as duas atividades de forma simultânea e não desista no meio do caminho. Em países como Portugal, o estudante que trabalha conta com mais tempo para se formar, mais oportunidades de avaliação e a possibilidade de não cursar de forma presencial. Além de subsídio para o custeio do curso e para a sua subsistência em forma de bolsas, dormitórios e ajuda de custo. (a fonte desta informação é informal, estou tentando encontrar a fonte oficial)

De forma mais estruturante, podemos sugerir ainda:

  • Inserção de disciplinas de lógica e computação nas bases curriculares (nível Federal)
  • A abertura sistemática de mais vagas em STEM em todo o território nacional
  • Infra-estrutura – subsídio governamental para a aquisição e manutenção de equipamentos para as escolas, universidades e educadores, assim como a garantia de acesso gratuito e irrestrito à internet. Criação de laboratórios para estimular o aprendizado para educadores e alunos como usuários e como criadores de tecnologias.
  • Parcerias com setor privado – por meio de parcerias com escolas técnicas, especializadas e de idiomas seria possível acelerar o acesso dos estudantes de escolas e universidades públicas ao conhecimento especializado e atualizado.
  • Incentivo Fiscal – para empresas que oferecem conhecimento sob forma de mentoria para jovens estudantes da rede pública, assim como para aquelas que contratam e investem na formação de jovens aprendizes na carreira tecnológica. A exemplo do Programa Menor Aprendiz, amplamente difundido por todo território nacional, poderia ser criado algo do tipo “Meu 1o Emprego tecnológico”.

As propostas acima foram pensadas entendendo que não temos professores que dominam carreiras tecnológicas em quantidade suficiente. Trazer estes profissionais por meio de concursos e investir em seu aprendizado será um caminho longo, que pode ser feito de forma paralela, como investimento de longo prazo. Mas o caminho mais ágil seria trazer trilhas de aprendizagem já experimentadas. E aqui entrariam as edtechs, no papel de oferecer conteúdo para estudantes de forma mais interessante e conectada com o mercado.

O tempo da educação e o tempo da urgência

O tempo das transformações de comportamento e de mercado é muito diferente do tempo das transformações no campo das políticas públicas em Educação. Mercados do mundo passam por um processo de aceleração digital, no qual a tecnologia tem papel de otimizar tarefas. A implicação imediata disto é a redução em grande escala de vagas de emprego entre aquelas posições menos especializadas, e com grande potencial de automação e consequente substituição por robôs ou algoritmos. 

Passou da hora de decidirmos que queremos ser vítimas deste processo ou protagonistas dele, como construtores de soluções tecnológicas para os novos tempos e usuários críticos que demandam produtos e serviços de qualidade crescente, subindo o nível do mercado. Mas observando o histórico de baixos investimentos dos governos brasileiros percebemos que a Educação de qualidade está longe de ser uma prioridade para a gestão pública no Brasil. Esta falta de vontade política configura o maior entrave para o desenvolvimento sócio-político e econômico do país.

Por isso, a urgência. É preciso fazer radicalmente diferente do que se faz hoje. A discussão mais ampla sobre qual Educação queremos, se é uma educação subserviente ao mercado ou não, permanece fundamental e relevante. Mas entendo também, que precisamos ser pragmáticos em um momento em que há vagas sobrando e as taxas de desemprego, subemprego e pobreza aumentam aceleradamente. Se tivermos que esperar recurso para a realização de concursos públicos para a contratação de professores para dar aula de conteúdos tecnológicos, o avanço do Brasil nesta área será inviável no curto e médio prazo. 

A realidade que já vivemos no Brasil, é que devido à falta de conhecimento, pessoas estão ficando de fora deste campo que é ao mesmo tempo conhecimento, renda, e experiência de consumo. Se nós, como país, não formos capazes de incluir as competências STEM e as soft skills no sistema de ensino, aí sim, estaremos perpetuando as exclusões históricas. A cada dia que não fazemos nada sobre isso, mais pessoas ficam de fora. E isso significa pobreza e todas as suas implicações.

Felipe Matos: CEO na Sirius *Te ajudamos a contratar, desenvolver e acelerar talentos
em tech | Presidente da ABstartups | VP no Dínamo | Empreendedor, mentor,
palestrante, escritor, investidor, ativista e educador

Fontes deste artigo: 

Evasão no nível superior – https://www.semesp.org.br/mapa-do-ensino-superior/edicao-11/dados-brasil/evasao/