Como nós do Dínamo já temos explorado há mais tempo, a escassez de talentos em áreas tecnológicas, ou nas áreas conhecidas como STEM (termo, em inglês, usado para designar o campo do conhecimento composto por ciências, tecnologia, engenharia e matemática – science, technology, engineering, and mathematics), representa um problema estrutural de alta complexidade – e alto impacto negativo – no Brasil. E como tal, demanda soluções igualmente estruturantes. Afinal, iniciativas isoladas e dispersas não conseguirão gerar resultados realmente transformadores e efetivos. É preciso construir ações integradas, com políticas públicas apoiadas em dados, e também nos aprendizados em experiências – bem e mal sucedidas – já realizadas dentro e fora do país. E além de tudo, é preciso pensamento estratégico, sistêmico e de longo prazo, pois mudanças no sistema de educação infelizmente demandam tempo para ser implementadas e então gerar os resultados esperados. 

Mas o que devemos considerar ao pensar nestas políticas públicas? Antes de tudo, é preciso identificar as diferentes origens do problema – ou os diversos problemas interligados que deram origem ao chamado “apagão de talentos”. A partir de então deve-se atuar para abordar estes problemas com abordagens e estratégias diferenciadas, visando gerar resultados no curto, médio e longo prazos. Considerar que o problema se inicia na educação básica e se estende até o nível superior é fundamental. E é preciso ainda compreender o que pode ser feito de forma autônoma por municípios e estados, que muitas vezes podem atuar de forma mais ágil e assertiva, ainda que localizada, considerando seus recursos e contextos culturais particulares. E o que fica a cargo do governo federal e costuma apresentar maior dificuldade e lentidão para aprovação e implementação, mas trata do sistema de educação como um todo.

As raízes do problema

Se investigarmos mais a fundo, vamos entender que é no ensino fundamental e médio que moram os primeiros obstáculos para o aprendizado e o interesse de crianças e jovens pelos cursos de STEM. Então, de nada adiantaria criar mais vagas e cursos mais interessantes de formação nestas disciplinas, se não há alunos interessados nestes cursos.

E então, por que o interesse por esta área é tão pequeno? Vários motivos colaboram para este fato. Entre eles, podemos destacar:

Mitos relacionados ao aprendizado de STEMS

Quantos de nós já escutou frases como: “se você gosta de matemática, você é um gêneo”, ou ainda “se você é de humanas, ou biológicas, não deve ter facilidade em exatas”? Muitas crianças são submetidas a este tipo de afirmação desde cedo, o que contribuiu para construir crenças limitantes e preconceitos sobre o aprendizado de STEM, e culmina por afastá-las desta área. Na primeira dificuldade, encaixota-se a pessoa em um perfil “você não tem facilidade, logo isto não é para você”, em vez de estimular o aprendizado por outros meios e métodos. E ainda há o entendimento de que só é possível ter afinidade com uma das áreas de conhecimento, em vez de estimular o desenvolvimento de todo tipo de habilidade e competência. Claro que há pessoas com diferentes perfis e interesses, mas imagine quantos talentos estamos desperdiçando por não estimular que explorem o conhecimento científico-tecnológico de forma ampla?

Baixa performance na educação básica em lógica, matemática e ciências
Segundo um estudo realizado pelo QEdu, portal de dados sobre a educação no Brasil, e pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), apenas 5% dos estudantes saem do ensino médio com conhecimento adequado em matemática*.

Pouca conexão com a prática e a formação dos educadores

A forma como estes conteúdos são ensinados são pouco conectadas à prática – o que gera perda de interesse. O que nos leva aos desafios de formação dos professores nestas áreas. Segundo o coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, Cláudio Landim, a falta de formação de pedagogos na área da matemática é o principal fator para a dificuldade de aprendizado nos anos finais do ensino. “Os professores passam a ensinar o que não sabem às crianças. Tenta-se transmitir regras e algoritmos sem saber o que aquilo representa”. 

A aposta do futuro é a educação de base

Então, quais seriam as propostas para o Ensino Fundamental?

  • Melhorar a qualidade do ensino de STEM desde os primeiros anos do EF, o que significa, pensar nos professores – e todo o seu contexto sócio-cultural. Para tanto, é necessário investir na formação, fornecer recursos para o seu desenvolvimento (como computadores, softwares, treinamentos específicos, internet banda larga), além de rever as políticas de remuneração destes profissionais. 
  • Investir na alfabetização digital – contato do estudante e do professor como usuário e como construtor de tecnologias.
  • Introduzir o ensino de lógica e das linguagens básicas de computação, assim como estimular o ensino de computação nas escolas – esta iniciativa é um dos casos em que parcerias com escolas de tecnologias públicas e privadas seria benéfico.
  • Intensificar o ensino de língua inglesa. Afinal, no processo de aprendizado das tecnologias, não dominar inglês pode ser motivo de exclusão. 
  • Desenvolver habilidades integradas em tecnologias e em soft skills desde o EF, o que implica entre outros, no estímulo ao empreendedorismo no sentido amplo, como forma de aprofundar a compreensão e ampliar a solução de problemas, aplicando para isso habilidades como comunicação, adaptação, criatividade e outras.
  • Criar estratégias de individuação do processo de aprendizagem, criando condições para que cada estudante possa realizar sua jornada pessoal de compreensão dos próprios interesses e talentos e estratégias para desenvolver seu aprendizado conforme seus objetivos e sonhos.

Como referência de como estimular o aprendizado não apenas das STEMs, mas também de outras disciplinas, é sempre bom lembrar da experiência de Sobral (CE), município que trabalha a motivação – internaliza no jovem a crença de que ele tem capacidade de aprender; cria ambiente e cultura propícios ao aprendizado constante; incentiva o desenvolvimento individualizado por meio do monitoramento dos dados de cada estudante, cria competições, e ainda promove a premiação em dinheiro para alunos, professores e escolas. 

Para se aprofundar mais na problemática de Talentos em STEM no Brasil, acesse o playbook criado pela Associação Dínamo em 2021

Mas esta é apenas uma parte da problemática de talentos em STEM no Brasil. Na sequência deste artigo, vou abordar propostas de iniciativas voltadas para o ensino técnico e superior. Siga nos acompanhando aqui no Observatório Dínamo.

Até mais!

Felipe Matos: CEO na Sirius *Te ajudamos a contratar, desenvolver e acelerar talentos
em tech | Presidente da ABstartups | VP no Dínamo | Empreendedor, mentor,
palestrante, escritor, investidor, ativista e educador

Fontes usadas neste artigo: 

Sobre o desempenho dos estudantes brasileiros em STEM
Sobre a experiência de Sobral (CE)